Aposentadoria de Sheik e o fim da era dos Bad Boys

Craque, excêntrico e problemático, Emerson vai pendurar as chuteiras em 2018.



Por Nilo Almeida

Aos 40 aos de idade e vestindo a camisa do Corinthians o irreverente Márcio Passos de Albuquerque, mais conhecido como Emerson Sheik, vai encerrar a carreira como jogador profissional em 2018.

Emerson é uma das figuras ímpares que o futebol brasileiro foi capaz de produzir em larga escala até os anos 90, e que não se repetem dentre os jogadores formados neste século.

O estilo egocêntrico, falastrão, indisciplinado, de muitos gols e belas jogadas, personificado por atacantes como Serginho Chulapa, Renato gaúcho, Edmundo, Edílson, Romário e Adriano Imperador sairá de cena do futebol brasileiro com a aposentadoria de Sheik. Certamente não há sucessores à altura dentre a geração de Felipe Melo, tampouco na geração de Oscar e Gabigol, ainda que o apelido ainda lhe caiba.

O atacante é natural de Nova Iguaçu (RJ) mas é conhecido como Sheik por ter nacionalidade catariana. Em 2008 Emerson se naturalizou para jogar pela seleção do Catar, disputou apenas uma partida pelo país nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, e só passou pela seleção brasileira em categorias de base, ainda no começo de sua carreira.

O início conturbado, no São Paulo

Sheik iniciou a carreira aos 18 anos, no São Paulo. Para ser aceito na base do tricolor, adulterou sua identidade de Márcio Passos de Albuquerque para Marcio Emerson Passos e sua data de nascimento de 6 de setembro de 1978 para 6 de dezembro de 1981.

Supostamente com 15 anos de idade, Emerson foi levado por um olheiro para testes na base do clube, e foi aprovado na avaliação do Técnico Milton Cruz, que comandava as equipes do sub 17 ao sub 20. A vantagem física levou o jogador uma ascensão rápida, que o fez figurar precocemente entre os profissionais, deixando para trás colegas como Kaká e Júlio Baptista.

Sheik estreou como profissional em 1998, em um empate sem gols entre São Paulo e Flamengo, no Morumbi, e foi integrado em definitivo para o elenco profissional no ano seguinte, quando foi testado pelo treinador Paulo César Carpegiani como lateral direito. Sem se adaptar à posição passou a atuar como meia e logo no início da temporada fez gols contra adversários como Atlético MG e Santos.

O São Paulo havia sofrido sanções desportivas por integrar Sandro Hiroshi ao elenco também com idade adulterada, e temendo outra punição negociou os direitos federativos de Emerson com Consadole Sapporo, que disputava na época a segunda divisão do Japão.

A ascensão na J-League

Sua passagem pelo futebol japonês durou cinco temporadas - entre 1999 e 2005 - tendo jogado por Kawasaki Frontale e Urawa Red Diamonds depois de jogar pelo Sapporo. Na temporada de 2000 levou o clube ao título da segunda divisão japonesa, foi o melhor jogador e ainda ficou com a artilharia da competição com 30 gols em 33 jogos.

Em 2001, já atuando pelo Kawasaki, Sheik voltou a disputar a segunda divisão japonesa, desta vez foram 19 gols em 18 jogos, que enfim lhe renderam uma oportunidade na primeira divisão. Entre 2002 e 2004 o atacante foi o maior destaque do Urawa Reds, e foi premiado como melhor segundo atacante da J-League por três anos seguidos, além de levar o prêmio de melhor jogador da competição em 2004.

Sheik no Catar, ídolo no Brasil

Sua passagem pelo Japão terminou em 2005, quando Sheik foi jogar no Catar pelo Al Sadd. Além de um contrato milionário, Emerson era premiado com itens de luxo, dentre eles alguns Rolex e carros importados, fazendo jus ao apelido "Sheik". Em 2007 Emerson deixou o clube do Catar, sendo emprestado ao Rennes, da França, mas retornou para o Al Sadd no mesmo ano.

Em 2009 Emerson voltou ao Brasil, para jogar no Flamengo, e começou ali o período mais marcante de sua carreira. No ano do retorno foi campeão brasileiro pelo rubro negro, em 2010 teve rápida passagem pelo Al Ain, dos Emirados Árabes, mas logo voltou ao Brasil e foi campeão nacional pelo Fluminense. Em 2011 chegou ao Corinthians, clube pelo qual venceu os principais títulos de sua carreira.

Ao vencer o Campeonato Brasileiro de 2011, se tornou o único jogador a conquistar três campeonatos brasileiros seguidos por três clubes distintos. Em 2012 foi decisivo em várias partidas da campanha do título do Corinthians na Copa Libertadores, conquistado de forma invicta e com atuação de gala de Sheik na final, quando o jogador fez os dois gols do título e ainda incendiou o jogo provocando e até mordendo, literalmente, um zagueiro argentino.

A queda de patamar e o fim da carreira

No fim da temporada 2012 Sheik venceu o Mundial de Clubes da FIFA pelo Timão e se firmou como ídolo da fiel torcida de forma incontestável, ao lado de ícones como Cássio e Danilo. Nos anos seguintes teve sua imagem desgastada diante da torcida até sair do clube contestado, assim como aconteceu com Paolo Guerreiro.

Fora de campo o jogador chamava a atenção pelo estilo de vida nada ortodoxo. De festas em mansões e Iates - sempre na companhia de Cuta, sua macaca de estimação - a chegadas apoteóticas - de helicóptero e em atraso - para treinos regulares, Sheik fez de tudo mas deixou de fazer gols.

Com uma queda brusca de rendimento e problemas disciplinares, Sheik deixou o Corinthians em 2014, passou pelo Botafogo e retornou ao Parque São Jorge em 2015, antes de voltar a atuar pelo Flamengo em 2015 e 2016.

Em 2017 Sheik jogou pela Ponta Preta e voltou ao Corinthians com um contrato de seis meses para encerrar a carreira no clube onde mais teve destaque. Ao fim do contrato Sheik pediu a renovação por mais seis meses, e na ocasião definiu publicamente que irá pendurar as chuteiras ao fim de 2018.

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